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Menino grande - Antonio Maria
(independente, 2013)

idealização, roteiro e produção: Clara Redig
arranjos e direção musical: Nelson Angelo
estúdio de gravação: Pactocombaco
engenharia de som e pré-mixagem: Daniel Curvelo de Mendonça Jr
Estúdio de gravação base e voz: Drum Studio
Engenharia de som e mixagem: Alexandre Hang
produção vocal: Ana Zinger
gravado entre julho de 2011 e maio de 2012
masterização: Alexandre Hang - Drum Studio
produção executiva: Miguel Bacellar
projeto e produção gráfica: Angela Bressane
revisão de texto: Letícia Campos
assistência de produção> Ana Redig

músicos:
Nelson Ângelo - violão
Adriano Souza - piano
Dôdo Ferreira - baixo acústico
Ricardo Costa - bateria e percussão
Andrea Ernest Dias - flauta
Eduardo Tartelli - sax tenor e flauta
Aquiles Neves de Moraes - fluglhorn
Roberto Marques - trombone
Quarteto de Cordas Radamés Gnattali:
Carla Rincon - violino 1
Andreia Carizzi - violino 2
Fernando Thebaldi - viola
Hugo Pilger - violoncelo

músicas:

  • Menino grande (trecho)
    (Antonio Maria)
  • Samba de Orfeu
    (Luiz Bonfá - Antonio Maria)
  • Frevo nº2 do Recife
    (Antonio Maria)
  • Ninguém me ama
    (Fernando Lobo - Antonio Maria)
  • Dobrado de amor a São Paulo
    (Vinicius de Moraes - Antonio Maria)
  • Manhã de carnaval
    (Luiz Bonfá - Antonio Maria)
  • Canção da volta
    (Ismael Netto - Antonio Maria)
  • O amor e a rosa
    (Pernambuco - Antonio Maria)
  • Preconceito
    (Fernando Lobo - Antonio Maria)
  • Meu contrabaixo
    (Antonio Maria - Zé da Zilda)
  • Menino grande (trecho)
    (Antonio Maria)

    imagens:
    encarte - apresentação por Geraldo Carneiro
    encarte - fotos
    encarte - agradecimentos





    por Geraldo Carneiro:

    CLARA E O ANJO BÊBEDO

    O novo CD de Clara Redig já parte de uma ideia magnífica: celebrar Antonio Maria, um dos maiores cronistas e letristas da história do Rio de Janeiro. O anjo bêbedo (a expressão é roubada de Paulo Mendes Campos) que pairou sobre a cidade com seu lirismo, sua dramaticidade e sua boemia entre os anos 50 e o princípio dos 60, e se tornou um dos maiores intérpretes da sensibilidade do Brasil daqueles anos, por muitos considerados dourados.

    O CD começa com o prólogo da canção Menino Grande, que desemboca n' O Samba de Orfeu: um show de síncope que parece ter sido escrito ontem, tamanho seu frescor.

    O Frevo número 2 do Recife remonta à origem de Antonio Maria: o Recife. A letra evoca a saudade das figuras míticas de Pernambuco, onde o cronista nasceu, em 1921, e onde passou seus anos de formação, fazendo rádio, escrevendo e dando os primeiros passos na vida boêmia. Ensaiando para ser um dos príncipes da capital federal, para onde viria de vez em 1947.

    Ninguém me ama talvez seja a obra-prima do Maria. Uma das mais belas e célebres canções de fossa, que mereceria mais tarde uma paródia (segundo alguns do próprio Maria ou de seu grande amigo Vinicius de Moraes: "Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama/ de Baudelaire.) A voz de Clara e a harmonia de Nelson Ângelo dão uma atmosfera paradoxal de bossa-nova à canção do Maria. Magnífico.

    Dobrado de amor a São Paulo, como diz o título, é um frevo em louvor à cidade, anterior a São Paulo, meu Amor, de Tom Zé, e a Sampa, de Caetano Veloso. (Aliás, foi a caminho de São Paulo, no avião, que Maria teve uma de suas mais divertidas aventuras de Don Juan, com direito a fracasso, é claro. Quem quiser conhecer os detalhes, é só ler a esplêndida biografia de Antonio Maria, escrita por Joaquim Ferreira dos Santos.)

    Manhã de Carnaval, parceria de Maria com Luís Bonfá, é das canções mais lindas dos anos 50. Foi contrabandeada pelo cineasta francês Marcel Camus para a trilha do filme Orfeu do Carnaval, (ou Orphée Noir, ou Black Orpheus), inspirado na peça de Vinicius, ganhador da Palma de Ouro de Cannes e do Oscar. A versão de Clara Redig e Nelson Ângelo não só renova a harmonia da canção como lhe dá um sotaque musical inesperado.

    Canção da Volta rememora a dramaticidade das histórias de amor dos anos 50, em que até as reconciliações eram de cortar os pulsos. (O próprio Maria, a despeito de sua visão de mundo de Casanova, acabou apaixonado por uma mulher fascinante, que deixou o marido também fascinante para viver uma história de paixão com o cronista-poeta, até que esbarrou em seus vícios de boêmio, bateu as asas e fez com que o próprio Maria morresse de amor, com certo prazer estóico de se deixar morrer, prazer esse talvez inspirado nos dramas franceses anteriores à Nouvelle Vague.)

    O amor e a Rosa é uma obra-prima atemporal: a letra poderia ter sido escrita por um trovador provençal: "Se o tempo passou/ o amor acabou/ a rosa há de ficar;/ num canto qualquer/ do teu coração/ o amor renascerá." De quebra, a improvisação requebrada do piano de Adriano Souza.

    Preconceito é um samba-canção menos conhecido e menor. Mas sua presença no CD ajuda a compor o retrato da época, talvez revelando o estigma e o fascínio paradoxal que um boêmio como Maria provocava na sociedade daquele momento histórico.

    Meu contrabaixo é um sambinha com letra adoravelmente cotidiana de Zé da Zilda, escrita com um humor que lembra Noel Rosa. Sem contar os diminutivos característicos da fala e da escrita de Vinicius, amigo e parceiro de Maria, autor, aliás, de seu mais belo necrológio em forma de crônica. A melodia também lembra Com que roupa, primeiro sucesso de Noel, que por sua vez parodia o Hino Nacional.

    Menino Grande, o título do CD, é uma espécie de auto-retrato de Antonio Maria. Que coroa este CD preciso na reconstrução de uma época tão próxima no tempo e tão remota na sensibilidade. Um nostálgico diria até que esse é o paraíso perdido das ilusões românticas, mas o poeta Jorge Luís Borges, que também viveu esse tempo, diz que comparar eras diferentes, em busca de estabelecer semelhanças ou diferenças, é um "carnaval inútil".

    Fundamental é mesmo o amor, como diria o Tom. E também que se registre de novo o Maria como um dos principais marcos da renovação que conduziria nossa canção ao reino do moderno, e, como diriam pouco mais tarde os filósofos Roberto e Erasmo, que tudo o mais vá pro inferno.

    E o mérito maior de Clara Redig e Nelson Ângelo foi despir a reunião destas canções de qualquer intenção museológica. Graças a isso, as canções estão aqui fresquinhas, como se acabadas de sair da fábrica, tendo, simultaneamente, a cara do seu tempo e o cheiro da eternidade. Assim Antonio Maria figura neste CD novo em folha, pronto para encarar os desafios da contemporaneidade.

    Geraldo Carneiro


    apresentação do show de lançamento em Vitória (ES) por Jace Theodoro:

    Show Noel Maria

    Quando o compositor e cronista Antonio Maria saiu do Recife e chegou ao Rio, em 1940, o compositor-cronista Noel Rosa já tinha partido fora do combinado três anos antes. Maria viveu o encanto boêmio da Copacabana dos anos dourados, enquanto Noel se esbaldou nas noites da Lapa, Gamboa e de Vila Isabel dos anos 30. O primeiro sempre quis conhecer pessoalmente o Poeta da Vila, mas o destino os separou antes do previsto (Noel morreu muito cedo, aos 26 anos).

    Conta a lenda que, numa noite na boate Vogue (lugar quente do badalo carioca), Maria conversava com Dorival Caymmi e, enquanto bebia o quinto copo de uísque, contou ao baiano seu encontro com Noel Rosa. Ele saíra de Copacabana e despencara pra Vila Isabel, na zona Norte, pra selar a parceria com o poeta de Último Desejo. Voltou de lá com algumas melodias, que, segundo ele, logo ganharam letra e estavam prontas pra serem gravadas e executadas nas rádios.

    E o anjo bêbado, seu apelido, contou em detalhes o encontro. Da roupa que ele foi ao samba que Noel o convidou à fita amarela usada por este, que balançava docemente enrolada no pulso quando Rosa dedilhava seu violão. E falava, e falava... eram tantas minúcias e pormenores deste encontro de gênios que Caymmi, irritado - os dois já estavam no nono uísque - disparou: "Agora que você já sonhou bastante, Maria, acorda, e vamos pra casa dormir". Não se sabe quem se pendurou em quem ou quem levou quem pra casa. Talvez um cabide.

    Foi um sonho sonhado, como cantou aquele outro poeta da Vila, o Martinho. Porém, com tantas coisas em comum entre eles, os dois cronistas compositores estavam fadados a se esbarrarem um dia. Tudo por causa de algo que eles gostavam com tamanha intensidade: as mulheres. Não à toa, ambos têm Maria e Rosa no nome.

    103 anos depois do nascimento de Noel e 92 do de Antonio, hoje este palco abrigará os dois, e mais uma vez, tem mulher no meio. Duas mulheres. Uma virá de Rosa e outra de Maria: Vera da Matta canta Noel Rosa e Clara Redig interpreta Antonio Maria. Enfim, nós teremos o prazer de celebrar este encontro de bambas. A noite promete momentos tão dourados e pulsantes como os da velha boemia carioca. Vou ficar por aqui porque este encontro eu não perco por nada. Vamos nos divertir juntos. Boa noite!

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